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Padre Sarmento de Benevides: poder e política nos sertões de Mombaça (1853-1867)
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ARTIGOS

RESPINGOS DA ESTRADA EM DEZ ATOS

 


Casarão da família Fagundes (Lima) construído no ano de 1904 por José Camilo de Lima, o José Fagundes, bisavô materno do editor deste site, situado na confluência da rua Padre Sarmento com a rua Manuel Irênio de Sousa.

Raugir Lima Cruz*

1.

Não sei se posso considerar um canto da estrada aberta, como o doce poema de Walt Whitman quando ele fala “A pé e de coração leve/ eu enveredo pela estrada aberta (...)/ Daqui em diante não peço mais boa sorte,/ boa sorte sou eu/ Daqui em diante não lamento mais,/ não transfiro, não careço de nada;/ nada de queixas atrás das portas,/ de bibliotecas, de tristonhas críticas; (...) Carrego ainda aqui os meus antigos fardos de delícias, (...)”. Talvez seja apenas pretensão de minha parte, porém, não deixa de ser um mergulho numa estrada aberta rumo ao passado, que às vezes considero tão remoto e marcado por alguns (muitos) cabelos grisalhos cultivados nas emoções dos anos.

A mente dá um salto profundo nas águas do passado, algumas vezes turvas outras não, para deparar-se nos finais dos anos 60, mais precisamente entre 1969 e final do ano de 1970, nos meus quatro e cinco anos. Minha casa estava cheia de gente, uma multidão se acotovelava pela sala diante de um dos raros aparelhos de TV daquela cidadezinha do sertão cearense. Fogos de artifício eram acionados a cada gol da seleção de futebol do Brasil e o País delirava com o Campeonato Mundial, enquanto lá fora uma terrível ditadura militar espalhava seus tentáculos pelo país, porém, isso não me despertava atenção, já que a minha preocupação era me apoderar das pistolas de artifício já detonadas, que serviriam de brinquedo para aquele garoto de uma timidez incomensurável, quieto e observador. Talvez até por essas características consegui aprisionar na memória tantas cenas.

2.

Acredito que as casas possuem alma própria, possuem vida que interage com a vida de seus habitantes, havendo uma estreita relação dos atos dos que ali habitam, das decisões por eles tomadas quanto aos seus destinos e a força emanada, a energia advinda das paredes da habitação. Aquele velho casarão na esquina da Rua Padre Sarmento com a Pedro Jaime Benevides¹, construído no ano de 1904, por meu bisavô José Fagundes², emanava uma energia grandiosa de suas paredes enormes erguidas com espessuras de quatro tijolos antigos e imensos, do teto altíssimo, do ar respirado por um número incontável de gente. Aquela casa foi freqüentada por pessoas que fizeram a história daquela pequena cidade. E dali tirei o combustível necessário para os meus sonhos e fantasias desde a mais prematura idade. A minha ligação com aquela casa era de uma estreiteza sem precedentes, era ela, minha amiga, irmã, confidente. Conseguia obter respostas de suas figuras evanescentes que lá habitam, sem que no entanto as pessoas a vejam. É entre essas e outras coisas que a maioria tem a visão turvada. Porque as pessoas só conseguem ver o que realmente querem. O marcante na minha mente infantil foi que sempre acreditei que em um canto de uma das salas, havia algo enterrado, uma botija, que nunca tive coragem suficiente de buscá-la. Ficava por longo período diante daquele local, todavia, algo tenebroso, que não sei explicar ao certo, me impedia de agir. Estarão sempre presentes em minhas reminiscências, os momentos de brincadeiras de esconde-esconde, por entre aquele sem número de quartos além do quarto subterrâneo. Sinto saudade do rangido rouco das dobradiças antigas, como se as portas quisessem denunciar alguma coisa. Hoje, aquele casarão me faz lembrar de gente, burburinho, vozes, como se o coração daquela pequena localidade pulsasse ali, que de forma contrastante com suas linhas antigas, ansiasse por futuro. Vez por outra aquela pressa sufocava-me, contrapondo-se com a minha personalidade em formação, buscando calmamente e sem compromisso um elo de ligação com este planeta, para mim, ainda desconhecido, de onde achava-me meio estrangeiro. Nunca pensei que poderia ou conseguiria me separar daquela casa, no entanto longe estou, muito embora fisicamente, porque carrego comigo, aonde vou, aquele lugar, cada cômodo, cada reentrância, até os mais escuros e aparentemente sombrios, como também os seus fantasmas, respiro aquele lugar e ele estará sempre comigo. Sempre.

3.

Logo salto para o ano de 1971, e a imagem vem nítida na memória, minha mãe a me segurar pela mão. Caminhamos rumo ao Centro Educacional Castro Alves, onde eu nasci como estudante. Dona Mazé – minha primeira professora. Uma mulher baixinha de estatura e tão grande no empenho de abrir os horizontes das primeiras letras para aquelas crianças. Tinha cinco anos de idade e caminhava calado, sem reclamar, já que o ato de reclamar só chegou e fincou morada em minha personalidade após a adolescência. A distância de minha casa para a escola, um pouco mais, um pouco menos de trezentos metros, que eu percorria com o coração quase sumido de tão pequeno e apertado, transformando na mente aquela distância tão curta em trezentos quilômetros. Era o desconhecido do lado de fora das quatro paredes do meu habitat natural, amedrontando a mente infantil, ainda desconhecedora dos percalços da vida, e já sentindo os primeiros traços de uma melancolia, companheira fiel de caminhada. Mas eu tinha um lugar para voltar. Eu sempre soube que voltaria. Um mundo só meu, povoado de árvores frutíferas e pássaros cantantes. O quintal da casa da Dudu – uma de minhas tias-avós, local onde chamávamos de muro, para mim, uma floresta encantada e desprovida da presença do medo, lugar onde dava formas aos sonhos e tinha o poder, só meu, de transformá-los sempre que quisesse, nunca destruí-los. Na sombra de minha floresta encantada me invadia um sentimento de poder e de liberdade, e lá alimentei todos os sonhos que carreguei dia após dia, desde a tenra idade até a rebeldia controlada da adolescência. Naquele local construí casas de tijolinhos e barro, com formas e tamanhos os mais diversificados, exercitando o talento daquele menino-arquiteto, que caminhos futuros e estorvos da vida ajudaram a desviar a rota para outra direção.

4.

De repente me vejo na adolescência e lá vai o menino tímido para um comício político, ouvir deputados oposicionistas em discursos contundentes, dizerem não aos coronéis da época, patronos do regime de exceção. Ficava meio escondido num canto qualquer, com inveja emocionada daquele poder de oração que eles exercitavam. Fica fácil voltar no tempo e ver Plácido Castelo, com olhos sempre marejados de água ao pronunciar a palavra Mombaça – seu berço, encravada nas terras que foram de Maria Pereira – minha nona-avó, como se nos dicionários, Mombaça, literalmente significasse saudade ou até mesmo paixão. Aquele homem apaixonado por sua terra, talvez se sentisse muito melhor dirigindo aquela cidadezinha, em vez de governar o Estado do Ceará. E o tempo vai passando, e sempre será assim, muitos ficando para trás, no meio do caminho. Algumas figuras bem nítidas na memória, outras nem tanto, a maioria no esquecimento total e cruel. O ostracismo e o esquecimento me faziam questionar o porquê de estarmos nesta vida terrena, se o destino real e definitivo é virar poeira da estrada. Questionamento filosófico e resposta inaudita.

E por falar em adolescente, recordo-me de paixões juvenis curtidas em silêncio, no esconderijo da timidez cortante e embaraçosa, que me impedia a aproximação, a abordagem mais contusa da garota pretendida, fazendo o corpo tremer e as palavras sumirem como num passe de mágica, ao olhar naqueles olhos negros. Oportunidades perdidas ao longo da adolescência pela simples insegurança, palavra que com o tempo, para mim, perdeu o prefixo. O que restava para aquele garoto embaraçado, senão regurgitar os sentimentos doídos, rascunhando no papel, hoje, amarelado pelo tempo, que há dois dias encontrei entre papéis velhos daquela época, e que ainda não tinham ido para o seu destino certo - o lixo. Aquele garoto sonhador certamente se viu trancado dentro de si, pois assim rabiscou:

Me vejo trancado dentro de casa, dentro de mim.
Lá fora um bêbado tomba.
Sinto medo da chuva que cai.
Sinto medo da cortina escura,
medo da solidão.
O amanhã é tão obscuro.
A insegurança me invade o ser.
Estas quatro paredes são um presídio,
mas a imensidão lá fora é perigosa.
Preciso da prisão dos seus braços para me libertar,
preciso do brilho dos teus olhos para enxergar o meu eu.
Preciso dos teus lábios para nutrir minha vida.
Até quando esta chuva
vai enegrecer minhas noites.
O sol.
Quero gritar pelo sol,
quero que o calor aqueça
os corações congelados de nada.
Não posso sair
mais do que meu passo
do outro lado da rua.
Não vou fugir,
pois as selvas-de-pedra
são mais solitárias que meu quarto vazio.
Mas o silêncio atormenta-me os tímpanos.
É ensurdecedor o silêncio de sua boca.
Meu amigo você partiu.
Que não parta junto a esperança do coração.
Meu amigo, o seu sorriso ficou, a sua fé ficou,
só não ficou a sua necessidade
de lutar pelo dinheiro.
Mesmo que você nem queira,
mesmo que seja necessário.
Sabe! Existem ainda, muitas pombas da paz.
Elas sobrevoam os corações da gente.
É que a guerra do dia a dia
não conseguiu abatê-las.
Estão apenas esperando
uma chance de pousar.
Estenda os braços.
Sinta.
Apesar da escuridão lá fora,
vale a pena viver.
Meu amigo,
eu queria mesmo era falar daquela mulher,
que veio de mansinho,
que ficou, que partiu,
que está em cada rua de minha vida,
em cada esquina, em cada bar.
Que tá no açude,
que tá na quadra, que tá no jogo,
que tá na vida, que tá em mim.
Eu não posso jogar fora os meus sonhos,
construídos e sofridos todas as horas.
Fique certo,
o sol vai sair
e eu vou caminhar.
Vou caminhar até encharcar de suor
aquele meu velho jeans.
Olha lá fora, meu irmão,
se o sol já vem.
Se vem dá um sorriso, milhares de sorrisos.
Quanta gente ficou para trás, eu não queria.
Mas muita gente andou bem depressa
e é inevitável a caminhada.
Meu amigo,
onde é mesmo que vou encontrar
aqueles lindos cabelos negros?
Será que vou vê-la lá na esquina
ou terei que ir jogar.
Talvez eu a veja na Avenida Paulista.
Mas é preciso ir tão longe
para tocar nos seus lindos cabelos negros?
Tudo é uma incógnita,
só não a saudade que trago comigo.

Olho para trás e lembro-me das quantas vezes que juntos jogamos voleibol, sentamos para longos papos e tomamos banho de açude. E era sempre assim, quando ela chegava do sul do país para passar férias. O tempo seguiu o seu rumo e vejo que hoje, certamente, não sentiria o menor problema em dirigir-me a ela e falar de sentimentos. As suas vindas escassearam. Nunca mais tive notícias daquela menina bonita de longos cabelos negros e olhos brilhantes, logo, já se passaram vinte e dois anos.

5.

Uma coisa que até hoje me faz extrema falta é aquele campinho de futebol de terra batida por trás da Escola Pedro Jaime, onde diariamente, após as aulas, chovesse ou fizesse sol, desfilávamos nossas ilusões perdidas, tentando ser um Zico, um Roberto Dinamite ou um Rivelino. Deveria ser inserido na Constituição, o seguinte artigo: é obrigatório que todas as crianças, desde o nascimento, possuam e portem uma bola de futebol. Estaria, então, institucionalizado o sorriso e o brilho nos olhos infantis. Nada se comparava para minha mente ainda perdida no burburinho dos sonhos, à emoção de um gol. Vestíamos velhas camisas rubro-negras desbotadas, já usadas e depois doadas, por outros garotos que podiam comprar o terno de futebol, mas não o talento. Craques mesmo, eram meus companheiros de time, Paulinho do Mestre Có e Tarcísio “Palito” Queiroga. Se o mestre Armando Nogueira tivesse tido a oportunidade de vê-los driblar, com certeza, teria recebido a inspiração para mais um poema futebolístico. Gostaria de voltar no tempo, e pelo menos por um momento apenas, usufruir na pele, no coração e na alma, as emoções sentidas naquele campinho que existiu na vida de minha turma, e que agora só sobrevive na memória de alguns. Não é que ergueram um muro alto e enterraram junto a liberdade da molecada. Que adianta não poder pisar a terra de pés descalços, sentir a água da chuva banhar o rosto, a bola dengosa prender-se vagarosamente nas poças d’água, sentir-se vivo? Deveriam ter afixado uma placa: “Aqui jaz alguns meninos garrinchas e seus sonhos”.

6.

Muitas vezes delineiam-se na memória, figuras esquálidas, andando pelas estreitas ruelas de minha cidade, que no passado possuíam um nome, único bem pessoal que conduziram pelas desgraçadas vidas. Na verdade não posso nem dizer que essas figuras possuíam na realidade nomes, eram apenas apelidos pejorativos, que seus donos nutriam verdadeira ojeriza. Lembro-me que sentia medo daqueles espectros de gente, além de sentir, também, pena ao ver corações desalmados a xingá-los nas ruas por “Chica Perdida” e “Zé da Onça”. Chica era uma senhora extremamente gorda, pés inchados, talvez pelo peso excessivo, marca de feridas nas pernas, sempre empunhando sacos sujos, nos quais conduzia as esmolas que alguns lhes dava. De Zé da Onça, só me recordo de um velho chapéu de palha e calças remendadas e arregaçadas acima dos tornozelos. Nunca soube os seus verdadeiros nomes, nunca os saberei. Somente a certeza de que nunca pude fazer nada para defendê-los de uma vida absurdamente soturna, e, se é verdadeiro a existência de Deus e de outro lugar no além, eles estarão sendo recompensados pela infeliz passagem terrena. E como lembrança vai puxando outra, puxei pela memória o nome daquele velhinho que engraxava sapatos, na rua que ainda chamavam rua do comércio, no coração da cidade. Não sei o motivo de achá-lo simpático, já que nunca se dirigiu a mim, acho até que nunca ouvi a sua voz. O que mais me chamava atenção, era aquele tamborete de pernas tão compridas que jamais vira, onde os transeuntes sentavam para polir os sapatos, contrastando com aquele profissional de flanela, tão baixinho. E não é que de repente me veio o seu nome: “Raimundo Engraxate”. Engraçado como muitas vezes as profissões se agregam ao nome dos profissionais que as exercem. Ele foi o primeiro profissional daquele ramo que conheci, até a invasão desenfreada dos tênis, esses, eleitos inimigos declarados dos engraxates e suas caixas.

7.

Hoje a saudade que sinto é a saudade de mim mesmo, do menino que fui, de meus questionamentos silentes, das fugas constantes para o meu interior. Não sinto saudades dos dias nublados e chuvosos, que nem sempre me traziam alegria, diferentemente da grande maioria das outras crianças, que de velhos calções e pés no chão tomavam banho nas bicas, na água correndo da boca dos jacarés, das casas da minha querida Rua Padre José Sarmento, a Rua da “Goela”, que acredito particularmente, ter esse apelido devido a sua pouca largura. Vale salientar que os jacarés (canos por onde telhados expeliam a água das chuvas com forma de um jacaré de boca aberta), já quase não existem mais, desaparecidos com o advento de novos modelos de construções, que ajudam a passar uma borracha nas lembranças materiais do passado. Nem sempre pude compartilhar da alegria daquela criançada a molhar-se na chuva, brincando pelas ruas encharcadas com água correndo em abundância no meio fio. Ficava espiando pelas frestas das janelas, aqueles momentos de liberdade, aprisionado por uma possível crise de garganta passível de chegar, caso mergulhasse naquela liberdade festiva e barulhenta. Aliás, vez por outra em que podia escapar, dirigia-me à Rua do “Velame” (Rua José Frutuoso Sá Benevides), para ver a enxurrada que quase sempre cobria as calçadas. Sempre acreditei que num tempo remoto, aquele local fora o leito de um córrego ou riacho, modificado com tijolos e pedras de paralelepípedo, que aos poucos deram forma a uma rua da cidade. Só sei que lá, a água, durante e após as chuvas, sempre correu em abundância, na busca incansável de misturar-se às águas do velho Banabuiú, um rio que sofreu de uma agonia lenta e gradativa, quando começou a receber os dejetos dos esgotos da cidade, e mesmo assim, valente como um sertanejo resiste no tempo. Talvez por vingança, durante longo tempo e anualmente, no período chuvoso, o velho e sofrido Banabuiú tragou nas águas de suas enchentes, várias vidas mombacenses, deixando marcas doídas no coração dos que ficaram.

8.

Muitas vezes não nos damos conta da importância das pequenas coisas da vida, até o momento que as perdemos ou que necessitamos delas. O ar que respiramos. O ato de respirar por ser corriqueiro, comum a todos os seres vivos, e por assim dizer natural, nos passa despercebido. Não nos damos conta do prazer, da felicidade que é o simples ato de enchermos o pulmão de ar. Dei-me conta disso, numa madrugada dos meus quinze para dezesseis anos, quando saltei da cama em busca do tão precioso ar. Tentava sugá-lo para dentro de mim desesperadamente, mas algo impedia o ar de entrar por entre os canais que o levariam para os meus pulmões. Alguns momentos de tensão e medo, que foram se repetindo a cada madrugada e depois em espaços mais curtos, também, no período diurno. Fui apresentado, pela primeira vez, a um leito de hospital, e gostei bastante de um companheiro ao lado da cama, conhecido por balão de oxigênio. Por um período ficamos bastante íntimos, já que ele conseguia levar aos meus pulmões o ar que naturalmente eu não conseguia aspirar, momento que comecei a cultivar um sentimento que ainda trago dentro de mim, sempre que me fazem algo de bom, a gratidão. Às vezes sentia que chegara a hora da despedida definitiva. Apesar daquela pouca idade adolescente, revi como num filme a minha vida até ali. Achava muito cedo para partir num caminho definitivo e sem volta. Fechar os olhos e mergulhar na escuridão cruel do esquecimento. Ser podado tão cedo da oportunidade de trilhar caminhos ermos e desconhecidos em busca de algum momento perdido de felicidade. Descobri que os primeiros quinze anos de vida não são suficientes para sentirmos o poder incomensurável e muitas vezes doloroso, daquele músculo latejante que trazemos do lado esquerdo do peito. A verdade é que alguma força superior decidiu que não era chegada a minha hora e resolveu me dar mais tempo e oportunidades para quebrar a cara pela vida e seguir adiante. O certo é que superei aqueles momentos difíceis e hoje permaneço aqui para contar essa passagem da vida. Só lamento até hoje que as economias que meu pai tinha guardado com tanto sacrifício tenham sucumbido, para que eu permanecesse apreciando o ato de respirar. Foi o preço literal da respiração.

9.

A vida algumas vezes nos prega peças, outras vezes nos dá compensações que nunca serão explicadas. Nininha, minha querida tia-avó, para mim avó de verdade, daquelas programadas para estragar o neto, por fazer-lhe todas as vontades, e dar-lhe um amor real e verdadeiro sem nada pedir em troca. Nunca esquecerei da felicidade e da segurança que desfrutava ao deitar-me em seu colo e aninhar-me em seus braços de mãe-avó. Às vezes me pego ouvindo-a cantarolar aquelas ladainhas religiosas. Ela casou, enviuvou cedo. Nunca teve filhos. Eu fui o único filho que ela elegeu para distribuir todo aquele amor, que estava reservado para um filho biológico que nunca veio. Cuidou de mim desde que de forma não natural, saltei do ventre de minha mãe, através das mãos de um cirurgião, para esta minha caminhada meio louca e imprevisível. Deu-me, papa na boca, seus braços para aninhar-me do frio e a certeza de que, ironicamente, não precisava ter medo, pois aquela velhinha pequena e quase surda me protegeria das asperezas da vida. Interessante que na mesa de cabeceira onde conservava a imagem de seus santos, conservava também uma foto minha quando criança. E foi assim por longo tempo, até que ela iniciasse sua caminhada ao encontro dos antepassados. E durante sua agonia, revezávamos, eu e meus pais, noite sim, noite não, para ficarmos em sua companhia, à espera de sua partida. Então o destino se apresenta diante de mim como um presente, uma compensação, que ainda duvido se fiz por merecer. Numa fria noite em que fiquei velando o sono de Nininha ela resolveu nos deixar. Acendi uma vela colocando-a em suas mãos, até que ela partisse para sempre. Ainda passei alguns minutos a sós com ela para me despedir e agradecê-la por tudo que tinha feito por mim. Mas ela já não me ouvia, e então perdi a oportunidade de dizer-lhe o quanto a amava, minha única e sempre “vozinha”. Depois, fui chamar meus pais que moravam na casa vizinha. Ao amanhecer muitas pessoas se achegavam para o velório, e eu, em momento algum chorei.

10.

Sentia muito a ausência de um trem que atravessasse minha terra. Ficava tentando ouvir ao longe aquele barulho característico das marias-fumaça e o piuí do apito avisando da chegada, algo que só conseguia apreciar nos filmes antigos. Não entendia o motivo pelo qual eles nunca chegavam. Até o dia que resolvi não esperar mais por eles, afinal como poderiam aparecer se nunca construíram uma estação, onde as pessoas pudessem chegar e partir? Fiz como aprendi a fazer ao longo dos anos - desviar o pensamento, afastar as lembranças, aprisionar num fosso profundo da alma o indesejável, o irretorquível, o imutável. Há muito não penso mais neles.

(1) Equivocadamente o autor cita Pedro Jaime Benevides ao invés de Manuel Irênio de Sousa.

(2) José Camilo de Lima, o José Fagundes, era bisavô materno do autor desta crônica e do editor deste site e dá nome a um logradouro em Mombaça, a travessa José Fagundes.

(Crônica publicada no livro “Sertão: olhares e vivências”, organizado pelo Fórum Clóvis Beviláqua, p. 24-42) 

Música-tema da página: Lamento Cigano, interpretada pelo Grupo Rorarni. 

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*Raugir Lima Cruz. Oficial de Justiça da Comarca de Quixelô-CE. É mombacense de Senador Pompeu, Ceará, onde nasceu no dia 15 de janeiro de 1966, filho de Etevaldo Lima Cruz e de Francisca Zeneida Lima Cruz. Graduou-se em Pedagogia na Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu - FECLI. É bacharel em Direito e pós-graduado em Direito Penal e Criminologia pela Universidade Regional do Cariri - URCA. Obteve o 2º lugar no Concurso Literário Rachel de Queiroz, promovido em 2006 pelo Fórum Clóvis Beviláqua em comemoração aos 30 anos da sua biblioteca, com a crônica Respingos da estrada em dez atos. A sua crônica foi publicada na coletânea “Sertão: olhares e vivências” com os dez trabalhos classificados no referido concurso. No dia 18 de dezembro de 2007 recebeu o título de cidadão quixeloense concedido pela Câmara Municipal de Quixelô. É autor dos artigos "Uma análise principiológica e legal das interceptações telefônicas: a produção probatória à luz do princípio da proibição da proteção deficiente", publicado na edição nº 87, ano XIV, abril/2011, da Revista Âmbito Jurídico e “A aplicação da Willful Blindness Doctrine na Lei 9.613/1998: A declaração livre e a vontade consciente do agente”, publicado no volume nº 9, edição 2011, da Themis, revista científica da Escola Superior da Magistratura do Estado do Ceará (ESMEC).


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