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HISTÓRIA


Sertão Cearense

A MAIOR TRAGÉDIA DO SERTÃO CEARENSE

 

Entre Jaguaribe-mirim e Santa Rosa, à margem esquerda do rio Jaguaribe, erguem-se entre a garrancheira da caatinga as arruinadas paredes duma casa antiga, em que se notam vestígios do incêndio. É tudo o que resta da fazenda senhorial do Boqueirão, pertencente a Manuel da Cunha Pereira e seu filho José Leão da Cunha Pereira (1), que nela morreu de maneira trágica. O episódio é um dos mais impressionantes das antigas crônicas do sertão do Ceará. O velho Manuel da Cunha Pereira era primo-irmão de meu bisavô paterno, o capitão-mor dos índios da Paupina, João da Cunha Pereira. Diz o historiador João Brígido que ele “procedia, em linha reta, do coronel de Cavalaria Antônio da Cunha Pereira (2), casado com D. Paula de Sousa Cavalcante, que se estabeleceram no Jaguaribe, em fins do Século XVII, vindos de Pernambuco; família a mesma chamada Barbosa Cordeiro, entroncando no coronel Pedro da Cunha de Andrade, da Ilha da Madeira, e sua mulher, D. Ana de Vasconcelos, neta de Arnaud de Holanda, bisneta de Henrique de Holanda, barão de Rhenonburg (3), que, dizem as crônicas, foi cunhado do papa Adriano VI. Jaboatão vai até ligar os Cunhas Pereiras a Nuno da Cunha, que foi capitão-mor do Malabar; a Tristão da Cunha, e a D. Luis de Ataíde, que foi 1º conde e senhor de Atouguia; a Isabel de Frois, que teve a imensa fortuna de ser criada da senhora rainha D. Catarina; a Cavalcanti, que era fidalgo florentino, a Jerônimo de Albuquerque”...

Toda essa genealogia, o citado historiador a foi buscar no autor do “Novo Orbe Seráfico” e dela vinha o orgulho dos Cunhas Pereiras. O sertão não se dava bem conta dela e os rotulava, desde fins do Século XVIII, simplesmente como os Cunhas do Boqueirão, respeitando, porém, seu prestígio e sua força. Manuel da Cunha Pereira tornara-se no começo do Século XIX um dos maiores potentados do Jaguaribe, acostumado a fazer justiça pelas próprias mãos.

A primeira vez que as crônicas cearenses se referem ao seu filho José Leão, tenente-coronel de Cavalaria auxiliar ou de milícias, foi por ocasião da expedição enviada contra o major português Cunha Fidié, ao tempo da independência, o qual seria assediado e capitularia em Caxias, no Maranhão. Juntara-se com os homens de seu comando às tropas de Tristão de Alencar (4) e José Pereira Filgueiras, distinguindo-se pela ferocidade na luta. Sua segunda aparição se deu quando dos últimos sucessos da Confederação do Equador no interior do Ceará. Seu pai recusara-se a acompanhar Tristão de Alencar nessa aventura republicana e tivera por isso os vaqueiros surrados e a fazenda saqueada. Quando Tristão, acossado no litoral, demandou o sertão e se chocou em Santa Rosa com as forças imperiais do coronel Amorim, ele, que o vinha perseguindo, a fim de vingar o velho Manuel da Cunha Pereira, atacou-o pela retaguarda e o desbaratou. Na fuga, Tristão foi morto por um dos seus sequazes, Venceslau Alves de Almeida.

José Leão era o primogênito da família, aliás, numerosíssima e muito ramificada, nascido nas primeiras núpcias de Manuel da Cunha Pereira. Este enviuvou relativamente cedo e casou pela segunda vez com D. Joana Sebastiana da Rocha, a qual lhe deu dois filhos: Sabino e Salvador, ambos terríveis. D. Joana ficou viúva e, contrariando a vontade dos filhos e do enteado, casou com um neto de seu defunto marido, o capitão Joaquim Manuel da Cunha. Para isso foi necessária dispensa especial da Santa Sé, obtida dificilmente através do prestígio do bispo de Olinda. Todos os Cunhas Pereiras do ramo principal condenaram essa união, considerando-a incestuosa. Daí surgiu grave malquerença entre eles e outros parentes que apoiavam aquele esdrúxulo casamento. Governava o Ceará o senador José Martiniano de Alencar (5), inimigo dos Cunhas do Boqueirão desde o feito de Santa Rosa. Sabino da Cunha tentou liquidar o padrasto a veneno e a tiro, mas não o conseguiu, pelo que o presidente Alencar o mandou prender. Estava solto em 1839, quando Joaquim Manuel, que andava a recolher dízimos de gados, pernoitou na fazenda Barrinha, armando sua rede na alpendrada. De manhã estava morto, sem que seus companheiros se houvessem apercebido de qualquer coisa. Uma pinta de sangue na camisa, sobre o peito, denunciou a maneira como fora assassinado. Alguém deslizara silenciosamente até ele, ferrado no sono, na calada da noite, e lhe enfiara diretamente no coração um sovelão agudo de coser surrões de couro.

Atribuído o crime aos Cunhas do Boqueirão, os parentes da vítima entoaram o canto da vingança. Assumiu a direção desta o cunhado de Joaquim Manuel, Francisco José Sant’Ana, vulgo Pataca, que já estava desavindo com José Leão por lhe atribuir ter mandado o facinoroso major Angelo do Gado Brabo matar seu irmão, o turbulento tenente-coronel Quixabeira. As ameaças recíprocas levaram, as duas parcialidades a pedirem garantias ao governo, mas este nada pôde fazer. O fato é que, enquanto Pataca aliciava na Paraíba e no Rio Grande do Norte um bando de criminosos para seu serviço, Sabino da Cunha se desmandava em insultos e desafios aos seus inimigos, obrigando nas eleições ditas a bacamarte de 31 de março de 1840 seu parente e partidário do Pataca, Manuel de Holanda da Cunha, a cheirar o chicote com que ia apanhar.

Depois de uma baldada tentativa para assassinar Sabino, de tocaia, Pataca tomou posição numa ilhota do Jaguaribe, de onde vigiava a fazenda do Boqueirão. Acompanhavam-no seus cunhados Manuel de Holanda da Cunha e José Francisco da Cunha, o Poeira; dois assassinos famosos, Antônio Gonçalves Carneiro, o Beira d’Água, e Antônio Cabaceira; os escravos Luís e Benedito; os capangas fornecidos por diversos amigos, brancos, cabras, mulatos e caboclos de maus bofes, Manuel Carlos de Esdinhares, Luís Boca de Fogo, Manuel Lopes, Ventania, Manuel Martins de Magalhães, Manuel Davi do Caxaçó e o espião Manuel José. Fornecia-lhes comida o fazendeiro João da Cunha. Mas o chefe político da vila próxima de S. Bernardo das Ruças, coronel Inácio Ribeiro Bessa, notou aquele ajuntamento suspeito e mandou um portador prevenir seu amigo José Leão.

Este chegou à fazenda do Boqueirão na tarde de 17 de junho de 1840. À noite, o Pataca a cercava com sua gente. Teve de participar da luta e nela pereceu. Os sitiantes não deixaram ninguém dormir, dando tiros, gritando desafios e insultos. Para resistir àquele ataque, Sabino contava somente com José Leão, o mensageiro do coronel Bessa, defensor forçado, três guardas-costas e um adolescente, Firmino, filho mais velho de José Leão. Ao todo, 7 homens, contra 14. O que lhes valia era a casa, que resistiu aos assaltos. Quando conseguiram os inimigos botar-lhes as portas abaixo, os sitiados meteram-se num quarto interno, onde tinham a mala de pólvora. José Leão correu a alapar-se na estrebaria. Aí a gente do Pataca desmanchou a cerca dos currais, empilhou-a de encontro à porta do aposento, de onde os cinco homens se defendiam a tiro, e tocaram fogo. As labaredas os ameaçavam e a fumaceira os asfixiava, não lhes permitindo abrir um buraco nas paredes por onde pudessem escapar. Pelas seis horas da manhã, violento estampido se fez ouvir, uma espécie de vulcão irrompeu do meio do incêndio: era a mala de pólvora que fazia ir tudo pelos ares. Os cadáveres encontrados mais tarde na grande coivara estavam estorricados e irreconhecíveis. Só se identificou o Sabino por um anel de brilhantes que trazia no dedo.

Os cangaceiros do Pataca acuaram José Leão, que se defendia como uma fera, no fundo da estrebaria e nela penetraram, escudando-se por trás de D. Maria Gomes, sua mulher, que tinham aprisionado. Aproximando-se dele, que não podia atirar, Manuel de Holanda da Cunha e José Francisco da Cunha conseguiram acertar-lhe duas balas. Tombou mal ferido e o cabra Cabaceira o ultimou, sangrando-o na carótida. Depois, foi o saque no meio das ruínas, em presença da infeliz viúva, que, com os filhos menores chorando, se lamentava ao pé do cadáver do esposo.

Depondo no processo feito na Delegacia de Polícia de S. Bernardo das Ruças a 29 de agosto de 1842, o cangaceiro Beira d’Água declarou que os três matadores de José Leão tomaram antes todo o dinheiro e prata da viúva, apoderando-se da baixela, da espada e das pistolas do morto e até dos cordões de ouro da infeliz; que Manuel Davi ficou com um bule e facas de prata, Manuel Lopes com os arreios e uniformes, coletes e redes, Boca de Fogo com uma roupa de couro. Não escaparam nem as imagens e redomas do oratório, nem as redes de dormir. O que não foi possível carregar se lançou ao fogo, inutilizando-se, assim, mais de 20 contos de réis, soma importantíssima naquela época, de letras e papéis de crédito. O cadáver de José Leão ficou até sem a camisa.

Os vizinhos e amigos do tenente-coronel José Leão, alertados ao longe pelo clarão do incêndio, correram em seu socorro, mas chegaram tarde. O bando do Pataca não esperou a reação, e pôs-se em retirada. Um daqueles amigos, Francisco Galuxo, fez força para alcançá-lo, porém só conseguiu tirotear com os retardatários, ferindo um deles, que ia carregado com as almofadas de rendas da fazenda do Boqueirão.

O folclore cearense conservou oralmente a memória dessa tragédia em algumas quadras significativas:

O Pataca e o Pereira
São homens até, até;
Pra matarem Zé Leão
Fazem trincheira da muié.

O Pataca diz que tem
Um alqueire de feijão
Pra comer com as queixadas
Do defunto Zé Leão.

O Pataca diz que tem
Um anel de ouro fino,
Que lhe custou a tirar
Do dedo do Balduíno.

Esses versos, como as denegridas e solitárias paredes do Boqueirão dos Cunhas, guardam até hoje a lembrança duma das maiores tragédias do sertão da minha terra, senão a maior.

(Segredos e Revelações da História do Brasil, por Gustavo Barroso, publicado na revista “O Cruzeiro”, de 27/06/1959, sob o título “A maior tragédia do sertão cearense”; À Margem da História do Ceará, Volume 2, ABC Editora, 2004, 3 ed., p. 229-233, sob o título “Uma tragédia do sertão”)

1. José Leão da Cunha Pereira - Segundo João Brígido, em Ceará (Homens e Fatos), Edições Demócrito Rocha, 2001, p. 308, “...o tenente-coronel José Leão da Cunha Pereira, um dos homens mais poderosos da quadra, rico e servido de mão pesada com que esmagara muita gente”, procedia, em linha reta, do coronel de cavalaria Antônio da Cunha Pereira, filho de João da Cunha Pereira e Maria Pereira da Silva (uma das primeiras habitantes e fundadora da cidade de Mombaça-Ce), nonavós paternos do editor deste site. Alguns autores atribuem ao tenente-coronel José Leão da Cunha Pereira a morte de Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, um dos líderes do movimento revolucionário denominado de Confederação do Equador e considerado o presidente da Confederação no Ceará. Outros autores afirmam que Tristão Gonçalves de Alencar Araripe foi assassinado por Wenceslau ou Venceslau Alves de Almeida, tido como capanga do tenente-coronel José Leão da Cunha Pereira. A morte de Tristão Gonçalves de Alencar Araripe ocorreu no dia 31 de outubro de 1824, aos 35 anos, 1 mês e 14 dias, na localidade de Santa Rosa, depois Jaguaribara-Ce, hoje inundada pelas águas do açude Castanhão.

2. Antônio da Cunha Pereira - Era o 5º filho de João da Cunha Pereira e Maria Pereira da Silva (uma das primeiras habitantes e fundadora da cidade de Mombaça-Ce), nonavós paternos do editor deste site. Segundo Antonio José Victoriano Borges da Fonseca, em Nobiliarchia Pernambucana, Coleção Mossoroense, 1993, vol. IV, p. 260, “Antonio da Cunha Pereira, que vive na sua fazenda da Roqueira em Jaguaribe, onde é sargento-mor do regimento da Cavallaria das Varzeas do mesmo Jaguaribe e Quixeramobim. Casou na Capitania do Ceará com D. Paula Cavalcante, filha do Capitão Antonio de Sousa Cavalcante e de sua mulher...”. Em Ceará (Homens e Fatos), Edições Demócrito Rocha, 2001, p. 308, de João Brígido, é citado como “...coronel de cavalaria Antônio da Cunha Pereira, casado com dona Paula de Souza Cavalcante, que se estabeleceram no Jaguaribe, nos fins do século XVII, vindos de Pernambuco; família a mesma chamada Barbosa Cordeiro, entroncando no coronel Pedro da Cunha de Andrade, da ilha da Madeira, e sua mulher Dª Ana de Vasconcellos, neta de Arnaud de Holanda, bisneta de Henrique de Holanda, barão de Rhenouburg, que, dizem as crônicas, foi cunhado do papa Adriano VI”.

3. Henrique de Holanda - Heinrich van Holand, Barão de Rhenoburg, foi casado com Margarida Florentz Boeyens, filha de Florentz Boeyens van Utrecht e de Gertrudes Boeyens, e irmã do Papa Adriano VI (*1459, +1523), que foi o 219º papa da Igreja Católica, no período de 1522 a 1523. Heinrich van Holand e Margarida Florentz Boeyens eram os pais de Arnaud de Holanda que foi casado com Brites Mendes de Vasconcelos (tiveram 8 filhos). Rhenoburg é grafado incorretamente como Rheneoburgo, Rhenengurg, Rhenouburg e Rhenonburg. Veja mais no link: http://www.geneall.net/W/per_page.php?id=291605.

4. Tristão de Alencar - Tristão Gonçalves de Alencar Araripe, um dos líderes do movimento revolucionário denominado de Confederação do Equador e considerado o presidente da Confederação no Ceará, era filho do português José Gonçalves dos Santos e da heroína Bárbara Pereira de Alencar (a primeira prisioneira política do Brasil, por sua participação na Revolução Pernambucana de 1817) e irmão de José Martiniano de Alencar (que viria a ser Senador e Presidente da Província do Ceará em dois períodos, de 1834 a 1837 e de 1840 a 1841). Nasceu a 17 de setembro de 1789, na localidade de Salamanca, Barbalha-Ce e faleceu a 31 de outubro de 1824, aos 35 anos, 1 mês e 14 dias, na localidade de Santa Rosa, depois Jaguaribara-Ce, hoje inundada pelas águas do açude Castanhão.

5. José Martiniano de Alencar - José Martiniano de Alencar - o futuro Senador Alencar - nasceu no povoado de Barbalha, então pertencente à cidade do Crato, no Ceará, a 18 de outubro de 1794. Foram seus pais o português José Gonçalves dos Santos e a heroína Bárbara Pereira de Alencar (a primeira prisioneira política do Brasil, por sua participação na Revolução Pernambucana de 1817). Personalidade marcante na política do 2º Reinado, o Senador Alencar envolveu-se com toda sua família na Revolução Pernambucana de 1817 e na Confederação do Equador de 1824. Líder do Partido Liberal, foi um dos deportados para a Europa, em companhia dos Andradas, no governo de D. Pedro I e o primeiro senador escolhido pela Regência Permanente de 1831 - 1835. Em sua residência no Rio de Janeiro, na então rua do Conde, fundou-se, em 15 de abril de 1840, a Sociedade Promotora da Maioridade do Imperador D. Pedro II ou Clube da Maioridade. “Foi ele quem redigiu os respectivos estatutos e pôs-se à testa da propaganda da idéia, em pouco vencedora”. Presidente por duas vezes da Província do Ceará, residia no Rio de Janeiro, quando faleceu, a 15 de março de 1860.

Música-tema da página: Odeon, de Ernesto Júlio Nazareth (1863-1934), pianista e compositor brasileiro, considerado um dos grandes nomes do "tango brasileiro" ou, simplesmente, choro.


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