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ARTIGOS

CARTA A MEU IRMÃO

 


Prof. José Aderaldo Castello

Maria Castelo Gomes*

Fortaleza, 30 de abril de 2001.

Meu querido irmão.

O Príncipe de Dona Antonina, assim chamava você uma de minhas amigas, vinda de uma cidade vizinha com a família fixar residência em nossa terra natal.

Você, o caçula de nossos pais, João Fernandes Castelo e Antonina Aderaldo Castelo, nasceu em Mombaça – cidade situada no sertão central do Ceará, em 2 de outubro de 1921. Herdou o prenome e as características genéticas do avô materno - Cel. José Aderaldo de Aquino, que fora manso, inteligente, “o Pacificador de Mombaça”, bem diferente dos demais coronéis daquela época, nos idos do século dezoito.

O poema “Saga dos Sertões de Mombaça” (a poesia dentro da História e da Geografia sentimental) escrito pelo conterrâneo Francisco Alves de Andrade e Castro, membro da Academia Cearense de Letras, Professor Emérito da UECE e mais títulos, refere-se à personalidade do nosso avô:

Terra de todos nós
e do Coronel José Aderaldo de Aquino,
tratando rudeza com elegância,
chefiando cordialmente a política,
e metido no seu “croisé”,
marcando quadrilhas em francês...
Com apenas algumas tintas
a mais do ABC, mais parecia
um nobre dos salões da Europa,
perdido nas asperezas dos sertões.

Os nossos avós paternos e maternos tinham fazenda de criação, fazenda de algodão, engenhos de cana-de-açucar – fabricação de rapadura e aguardente – nos ligando assim ao meio ambiente local, a natureza. Este contato nos trouxe benefícios e lazer e usufruímos por isso momentos inesquecíveis. Na temporada da “moagem” acordávamos com as exclamações dolentes dos serviçais vindas da Casa de Engenho, no tanger a junta de bois, para que a cana introduzida na máquina se tornasse bagaço e, extraído o caldo da cana, fosse com os ingredientes às fornalhas para a fabricação da rapadura.

Como era agradável sentir o aroma do mel, mexido no tacho de cobre até chegar o momento de ser despejado em uma gamela e batido para dar o ponto do apreciado doce!...

Lembro-me de você, querido irmão, policiando nosso pai, para que deixasse um pouco para colocar nas formas de suas pequenas rapadurinhas com as quais negociava...

Na chegada da estação invernosa como mudava o visual do nosso sítio!... as árvores tomavam nas suas folhagens várias tonalidades do verde, o açude sangrava, ouvia-se o mugido do gado bem alimentado pela fartura do pasto. A seca de 1932, que assolou o Ceará, você a presenciou e disse: “não esqueço nunca!” Forte para você foi esse contraste entre fartura e miséria. Quando o jovem e inteligente repórter do Diário do Nordeste – Felipe Araújo – perguntou a você: “De que maneira o fato de ser cearense, de ter nascido no nordeste, influiu em sua visão de literatura?”, sua resposta não tardou: “Isso foi fundamental. Eu sou do sertão. O sertão tem um peso enorme na nossa formação”.

O nosso pai teve uma preocupação persistente que levou até os amigos, o estímulo dos filhos pelo saber. Fomos privilegiados, correspondemos a seus desejos. Todos os fins de ano, nossa bondosa e bonita mãe, sempre tão religiosa, pedia ao pároco da cidade para celebrar missa em ação de graças pelo êxito obtido pelos filhos.

Você manifestou precocemente o amor à leitura. Os estudos primários foram feitos em Mombaça, muitas histórias e muita literatura brasileira. Aos 12, 13 anos, eram os autores, naquela época, proibidos aos adolescentes, que você lia: Aluísio Azevedo, os primeiros romances de Machado de Assis, os de Eça de Queiroz. Nossa mãe o incentivava a aproveitar as férias divertindo-se também nas “festinhas” na cidade.

Surpreendeu-me quando o já mencionado conterrâneo Francisco Alves de Andrade e Castro, ainda estudante, em período de férias, levou a um palco improvisado uma dramatização da qual você era o autor. Convidou-nos a fazer parte do elenco como atores principais e aceitamos o convite. Lembra-se? E quando, nas brincadeiras comigo e as duas outras irmãs Graziela e Ana (Nanoca) nos excedíamos, como reagia você? Recorria ao SOS (Dona Antonina): “Mamãe, olhe estas meninas...”.

E, terminadas as leituras, como você gostava de se sentir embalado pelas canções de sua preferência, pedidas a Graziela, que herdou, como a Nanoca, a voz harmoniosa de mamãe! O período de nossa infância nos marcou muito, foi muito agradável ao lado de nossos pais.

Louvado seja Deus pelo dom da vida! O privilégio de você estar vivo entre a família: sua esposa Yara, a filha única e amada Clara Lúcia que lhe deu dois netos: Marcos e Paulo, as três irmãs, sobrinhos e amigos. Soube corresponder ao desejo de nossos pais e dos irmãos mais velhos que o ajudaram na caminhada em busca do saber. Em São Paulo, fez excelentes amizades entre professores e colegas. Você alcançou, querido irmão, a confirmação plena de um passado de luta, de coragem, fé em Deus, inteligência, esperanças e realizações.

A Dra. Telê Ancona Lopez solicitou-me um texto sobre a sua personalidade para juntar a outros, em comemoração a grande data: os seus oitenta anos bem vividos. Aqui estão algumas pinceladas despretenciosas sobre sua infância, da irmã mais velha que não é escritora.

Agora, vamos nos tornar crianças novamente e nos lembrar dos versos da bonita canção com que nossa mãe gostava de ninar seus filhos:

Caridade é o suave perfume
que os arcanjos respiram no céu...
É a luz cujo brilho sublime
Da tristeza se desfaz em véu.

Caridade é o bafejo celeste
É a linda imagem do Senhor
É a flor que ornamenta os arcanjos
Caridade é de Deus o amor...

Caridade é de Deus o amor...

(Publicado no livro A presença de Castello, organizado por Edilene Matos ...[ et al. ]. São Paulo: Humanitas/FFLCH/USP: Instituto de Estudos Brasileiros, p. 19-21, 2003.)



Maria Castelo Gomes

*Maria Castelo Gomes. Professora. Nasceu em Mombaça-CE, em 17 de setembro de 1917 e faleceu em Fortaleza-CE, em 6 de setembro de 2009, aos 91 anos de idade. Era irmã de Plácido Aderaldo Castelo, ex-governador do Estado do Ceará (1966-1971) e do Prof. José Aderaldo Castello, Professor Emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP), Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Ceará (UFC) e autor de importantíssima obra crítica, conhecida no Brasil e no Exterior.


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