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ARTIGOS

POR QUE SER JUDEU?

 

David Castelo, professor de música. É neto paterno do ex-governador do Estado do Ceará Plácido Aderaldo Castelo (1966-1971).

David Castelo*

Por que ser judeu? Por que buscar o judaísmo? Certa vez, minha avó levantou seu dedo indicador e, em tom solene e de revelação, me disse: “meu filho, nunca esqueça que somos judeus”.

Eu morava então em Fortaleza e, na época, não havia lá nenhuma comunidade judaica estabelecida. Por conseqüência, era um ambiente sem muitas possibilidades de me oferecer referências sobre o que seria um judeu.

Na verdade, não ouvi só uma vez aquela frase de minha avó. Ouvi repetidas vezes esta e outras referências sobre nossa origem. Dizia ela: meu pai é “Pedro Freire, judeu, a cuja família pertenciam as salinas do Boi Morto no Rio Grande do Norte”. Mas como eu poderia ser judeu? Nós éramos católicos... ou não?

Um dia, me ocorreu perguntar a meu pai a razão de não comermos carne de porco. “É uma carne suja”, foi a resposta. Judeus não comem carne de porco, mas o fato de nós não comermos porco nos fazia judeus? E por que quando abatemos um cordeiro tiramos todo o sangue? Judeus comem carne sem sangue. Mas isso fazia de nós judeus?

Achava muito engraçado minha avó acender velas todas as sextas-feiras ao cair da noite. Depois, soube que velas são acesas no Shabat. Mas acender velas às sextas-feiras nos fazia judeus?

Sou David Castelo. Castelo que antes era Teixeira e que chegou ao Brasil no final do século XVIII como Góis e Mello. Primeiro em Recife e em seguida no interior do Ceará, em Mombaça. No sertão central do Ceará nascemos, vivemos e morremos por nove gerações. A minha é a primeira a nascer inteiramente em capitais. Mas cresci em nossa fazenda, em Mombaça, comendo carne de cordeiro sem sangue e achando porco o bicho mais nojento da criação.

Essas e outras constatações sobre nossa origem judaica não me respondiam o significado de ser judeu, como minha avó me dizia.

Então por que razão resgatar o judaísmo?

Porque atribuo o que melhor do legado de minha família à nossa origem judaica. Sobretudo nossa capacidade de compreender e balizar nossa conduta através da observância a leis e princípios éticos.

Por que retornar a um povo perseguido? Por que assumir tal risco?

Porque um dia minha família foi forçada a camuflar aquilo que de mais importante um indivíduo e um grupo têm: sua identidade e por conseqüência sua dignidade.

Não busquei o judaísmo por acreditar que era a única verdade ou o único caminho para D’us, mas por acreditar que, para mim, era o único caminho.

A herança de minha família me trouxe o orgulho de ser Oliveira, Vieira, Figueiredo, Freire, Góis e Mello, Teixeira e finalmente Castelo. Nossas heranças, a obra construída por nossos antepassados, são presentes, nossas primeiras bênçãos. Através delas adquirimos nossas referências, sabemos de onde viemos. Não fosse essa dádiva suficientemente grandiosa, recebemos em acréscimo o direito de criticá-la, escolher e levar conosco aquilo que verdadeiramente nos importa. Nossa herança nos dá referências e nosso livre arbítrio nos permite escolher o que julgamos melhor para nossas vidas.

Minha herança vai bem além daquela construída por minha família no Brasil. Nossa identidade roubada, mesmo após dez gerações, reclamou seu lugar em minha herança.

Afinal, que direito tinha um Papa ou sua igreja de impor a um povo que o melhor para ele é negar sua identidade, e por conseqüência sua dignidade?

Ainda assim, o problema não é ser cristão ou ser judeu. Quantos e quão queridos são meus amigos cristãos. O problema é que alguém um dia decidiu para minha família que, na verdade, o certo é ser católico. Não foi decisão minha, não foi fruto do meu desejo nem conseqüência do meu trabalho. Realizei então que pertencia tão somente a mim a decisão de resgatar meu passado mais antigo.

Me saber marrano ou não consumir carne suína não me fazem judeu. Me faz judeu o desejo pelo retorno e o sentimento de pertencer ao povo de Israel.

Compreendi que David Castelo é apenas parte de minha identidade e passou a não ser suficiente. Precisava voltar a ser David ben Avraham Avinu. Necessitava retornar à casa do pai de todos nós!

E é por isso que sou judeu!

Eu gostaria de dedicar essa ocasião a minha avó, Joana Castelo que, ao me revelar nosso passado, abriu a porta para meu futuro; a meus pais pelo incentivo; a minha saudosa amiga Maria Claudia Ribeiro por me apresentar o amigo a quem confiei meu processo de conversão, o Rabino Alexandre Leone e finalmente agradeço, do mais fundo de meu coração, ao carinho com o qual fui recebido pelo Bnei, eu não poderia imaginar comunidade que melhor represente Israel nesse momento.

Muito obrigado!

(Fonte: Bnei Chalutzim, disponível em www.bneichalutzim.com.br/index_arquivos/David.htm. Acesso em 23 fev. 2008)

*David Castelo. Professor da Faculdade Carlos Gomes – SP, David Castelo estudou regência na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e é formado em flauta doce pela Faculdade Santa Marcelina - SP, na classe da Profª. Isa Poncet. No período de 1998 a 2003, David Castelo estudou no Conservatório Real de Haia (Holanda), orientado por Reine-Marie Verhagen e Peter van Heyghen. Nesta instituição obteve o "The Post-Graduate Certificate for Advanced Studies"; o "The First Phase Diploma" e o "The Seconde Phase Diploma" (Master’s of Music - Soloist Diploma), sendo esta a mais alta titulação concedida a um instrumentista na Europa. Ao longo de sua formação estudou com: Ricardo Kanji, Edmundo Hora, Cléa Galhano, Hugo Reyne, Sébastien Marq, Marion Verbruggen e Kees Boeke. Como intérprete e palestrante tem atuado nas principais capitais brasileiras bem como na Holanda, Alemanha e Itália, destacando-se os seguintes eventos: Festival Internacional Bach, solista junto à Orquestra Barroca do Conservatório Real de Haia (dir. Jaap ter Linden), Rotterdam (Holanda), 1999; Festival Internacional Bach de Amsterdam, solista junto à Orquestra Colegium Musicum (dir. Tini Mathot), Holanda, 2001; Concerto de Abertura do Congresso Internacional Jeroun Bosch, Den Bosch (Holanda), 2001; Festival Internacional de Música Antiga de Deventer, solista junto à orquestra Colegium Musicum Den Haag, Deventer (Holanda), 2002; Master Class de flauta doce, Conservatório de Tatuí, São Paulo, 2003; Concerto Barroco, solista junto à Orquestra Sinfônica Nacional (dir. Ligia Amadio), Rio de Janeiro, 2003; After-Christmas Concert, Solista junto a orquestra Concerto Rotterdam (dir. Marien van Staalen), Rotterdam, 2003; XII Curso Internacional sobre o Método Kodály – Oficina de Flauta doce, São Paulo, 2004; Semana de Música da Universidade Federal de Uberlândia - Curso de Flauta doce, Uberlândia (MG), 2004; Festival Internacional de Música de São Caetano do Sul, São Caetano do Sul (SP), 2000, 2001, 2004 e 2005; Festival de Música de Londrina (PR) 2007. Paralelamente ao seu trabalho musical, David Castelo tem atuado como curador para projetos musicais nos Centros Culturais do Banco do Brasil em São Paulo e Rio de Janeiro. Atualmente, David Castelo desenvolve pesquisa em nível de pós-graduação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) discutindo os aspectos de performance do repertório brasileiro do século XVIII, recebendo orientação da Profª. Dra. Helena Jank.

 


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